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quinta-feira, 6 de novembro de 2008

A ALMA DA FOME É POLÍTICA

A alma da fome é política

 A fome é exclusão. Da terra, da renda, do emprego, do salário, da educação, da economia, da vida e da cidadania. Quando uma pessoa chega a não ter o que comer, é porque tudo o mais já lhe foi negado. É uma espécie de cerceamento moderno ou de exílio. A morte em vida. O exílio da terra.

A alma da fome é política.

A História do Brasil pode ser contada de vários modos e sob vários ângulos, mas para a maioria ela é a história da industria da fome e da miséria. Um modo perverso de dividir o mundo em dois, produzindo um gigantesco aparteheid. Nesse campo, fizemos verdadeiros milagres de desenvolvimento: um dos maiores PIB do mundo abraçado com a pobreza e a miséria mais espantosa. Aqui não houve lugar para o acaso. Tudo foi produzido como obra calculada. Fria.

O resultado está aí diante dos olhos de todos. Uma parte ostensiva, rica, educada, motorizada, dolarizada. Outra parte imensa na sombra, analfabeta, dando duro todos os dias, comendo o pão que o diabo amassou em cruzeiros, reais. Dois mundos no mesmo país, na mesma cidade, muito próximos pela geografia e infinitamente distantes como experiências de humanidade.

A fome é a realidade, o efeito e o sintoma. O ponto de a partida e de chegada. A síntese, a ponta do novelo a partir da qual se explica e se resolve. Porque a fome não é episódica nem superficial. Revela fundo o quanto uma pessoa está sendo excluída de tudo e com que frieza seu drama é ignorado pelos outros.

A realidade cotidiana de 32 milhões de pessoas vivendo na indigência, a população de uma Argentina. Os sem-nada, os sem-comida, habitantes do mundo da fartura, do terceiro exortador mundial de alimentos.

É gente que começa o dia buscando o que comer e que chega à noite sem nada. Pode-se imaginar o quadro porque é o dia de todo dia para milhões de seres humanos: a fome de comida e de tudo. A essa altura da vida da humanidade é incrível que isso aconteça. Como morrer de fome ao lado de 70 milhões de toneladas de grãos, de 8,5 milhões de hectares de terra, se todos esses brasileiros miseráveis ficariam saciados só com os 20% do desperdício?

Pela fome de 32 milhões se revela a essência humana do próprio país, aquele que é capaz de negar a condição humana para 20% de sua população. A fome é o atestado miséria absoluta e o grito de alarme que sinaliza o desastre social de um país, que mostra a cara do Brasil.

Como a miséria é a síntese e o nó de um processo, desvendar e atacar a miséria é também um modo de refazer radicalmente o Brasil.

Assim como a miséria foi sendo construída com a indiferença frente à exclusão e a destruição das pessoas, a negação da miséria começa a se realizar com a prática cotidiana, ampla e generosa da solidariedade.

A frieza construiu a miséria. Construiu as cidades de gente e de muros, que as separam como estranhos, que se ignoram e temem.

A luta contra a miséria nos obriga a um confronto com a realidade naquilo que nos parece mais brutal: a pessoa desfigurada pela fome, desesperada pela comida ou por qualquer gesto de reconhecimento de sua existência humana.

SOUZA, Herbert de e RODRIGUES, Carla. Ética e Cidadania. São Paulo. Moderna, 1994

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